
Uma borboleta
pousou cansada no arame,
no arame de uma cerca eléctrica.
Um mendigo,
deitado sobre seu gelo
dormindo sobre seu trono
não foi esquecido
foi aquecido
por fagulhas,álcool e cegueira
de "mãos superiores",
aquecido demais...
Alguém chora no banheiro
de um prédio qualquer
de um andar qualquer
de um departamento qualquer
A essa hora alguém foi embora
daquela casa
daquele bairro
dessa cidade...
Sorrisos adiados
vazios preenchidos com suspiros
vidinhas sempre vidinhas
Relógios,
empregados do tempo
vidinhas sempre vidinhas
escravas dos empregados
Nuvens misturam-se com fumaça
gotas sujas perseguem
os sonhos tenros
dos meninos que crescem sozinhos...
e suas alegrias rabiscadas lá fora,
pedem abrigo
pois sabem que não serão nada depois da chuva.
Cabeças brancas e cabeças burras
todas no mesmo ônibus
sociedade formada nos quilômetros
de silêncio
dos vizinhos diários
e os hálitos em suas bocas,
que tem o céu como prisão
talvez nunca saberão
que o grande infinito está à alguns
centímetros
entre a fala e audição.

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